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Projeto de dança com deficientes tem apoio da Unesco e continua sem sede

Mesclar arte com inclusão social para resgatar a generosidade humana é o estímulo que dá força ao casal de ativistas Keyla Ferrari e Vicente Pironti, fundadores da escola de dança Humaniza, de Campinas (SP). O projeto existe há 12 anos, é voluntário e tem 30 alunos com deficiência. Da escola, a bailarina Keyla fundou, em 2010, a companhia de dança, que realiza pelo menos dois espetáculos mensais. Mesmo com o título de única entidade de dança para deficientes de Campinas com chancela da Unesco, o projeto continua sem sede própria e patrocínio.

Dos 30 alunos da escola, Keyla seleciona entre oito e dez para a Cia de Dança Humaniza, que sobrevive por meio de doações e cachês de eventos contratados. São pessoas com deficiências físicas, sensitivas e mentais que encontram nos ensaios e apresentações da companhia uma ocupação que rende, mais do que dinheiro, estímulo e alegria. "O que buscamos é fortalecer a cultura da generosidade por meio da arte", explica o artista e educador Vicente Pironti.

Os ensaios, tanto da escola quanto da companhia, ocorrem aos sábados de manhã no Centro Cultural de Inclusão e Integração Social (CIS Guanabara) da Unicamp. "[A universidade] é uma parceira nossa que tem nos cedido o espaço há três anos", conta Keyla, que atua também como pedagoga e professora universitária. O casal não cobra mensalidade aos pais e responsáveis pelos alunos, mas recebe ajuda de alguns deles para comprar materiais e equipamentos.

'Ensaiei até em casa'
Se a tarefa de manter o projeto em funcionamento é difícil atualmente, as memórias de Keyla sobre o início das aulas refletem uma luta árdua desde o princípio. "Comecei há 12 anos com duas alunas cadeirantes. Tinhamos uma entidade parceira que nos cedia o espaço, mas migramos muito nesse tempo", conta. Antes de se tornar companhia, o projeto já foi ONG e ponto de cultura de Campinas.

"Um dos locais que usávamos estava com risco de desabamento e, até conseguirmos outro, levava o pessoal para casa para os ensaios', relembra. Em paralelo ao projeto de dança, Keyla concluiu curso de pedagogia e é doutoranda em atividade física pela Unicamp. Bailarina desde criança, optou por não fazer graduação de dança, mas nunca deixou de atuar com a arte.


"Resolvi que trabalharia com pessoas especiais quando consegui uma bolsa e fui estudar um mês em Londres. Lá, acompanhei uma dança linda de uma menina em cadeira de rodas e falei 'é isso que vou fazer da vida'", conta Keyla. Além da Inglaterra, a bailarina viajou por países como França, Itália, Portugal e Suíca para dar palestras sobre o trabalho com pessoas com deficiência. A partir daí a Unesco conheceu a escola.

'Aprendi muita coisa'
A cadeirante Maria Aparecida Tenca, de 52 anos, é uma das duas primeiras alunas de Keyla. Com simplicidade, ela define a importância da dança. "Sempre quis dançar e, quando descobri que conseguia, foi ótimo". Tenca, como é carinhosamente chamada pelos colegas da companhia, também tem deficiência neuromotora congênita. "Não procuro saber o que cada aluno tem, prefiro aguardar o tempo necessário para cada um me contar. Só pergunto quais as restrições de cada um, qual movimento não podem fazer." explica Keyla.

"Uma vez, fiz uma supresa para a Keyla. Desci da cadeira e dancei no chão sem ela saber! Ela nem acreditou", conta a animada bailarina, com alegria nos olhos. A companhia promoveu apresentações em cidades da região de Campinas e no Rio de Janeiro.

Chancela internacional
Em 2013, o grupo adquiriu o vínculo com o Conselho Internacional de Dança (CID) da Unesco, que permite à escola emitir certificado técnico de conclusão do curso aos bailarinos. "Nós passamos a grade curricular e tudo que fizemos no ano e eles nos enviam os diplomas", explica Keyla. A oportunidade surgiu do interesse da própria entidade internacional em conhecer a escola, divulgada pela bailarina nos eventos dos países europeus.

O reconhecimento internacional não faz com que os sonhos de Keyla e Pironti sejam ambiciosos. "Quero conquistar uma sede própria para nossa escola e conseguir mais eventos por mês, para auto-sustentabilidade deles [bailarinos]", diz a professora. Depois de refletir por alguns minutos, ela conclui, "e quem sabe levá-los para fazer apresentação no exterior".



Fonte:

http://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/noticia/2014/12/projeto-de-danca-com-deficientes-tem-apoio-da-unesco-e-continua-sem-sede.html